Há festas que se fazem de luzes, música e multidões. E há outras que
se constroem de algo mais profundo: de memória, de pertença, de fé e
de gratidão. O Samiguel de Cabaços, em Ponte de Lima, pertence a estas
últimas.
Mais do que celebrar o seu Padroeiro, São Miguel Arcanjo, Cabaços
procura, todos os anos, reencontrar nas suas raízes aquilo que durante
séculos deu forma à vida das suas gentes: a terra, o trabalho, a fé,
a entreajuda, a família e a comunidade.
E talvez não seja por acaso que esta festa acontece em setembro.
No dia 1 de setembro, a Igreja assinala o Dia Mundial de Oração pelo
Cuidado da Criação, dando início ao chamado Tempo da Criação, que
se prolonga até 4 de outubro, dia de São Francisco de Assis. É um
tempo que convida os cristãos a olhar de novo para a terra, para os
animais, para as plantas, para a água, para aquilo que nasce, cresce e
dá fruto, reconhecendo em toda a Criação um dom recebido e confiado
às mãos do ser humano.
É precisamente neste tempo que Cabaços celebra o seu Samiguel.
E celebra-o regressando à terra.
Regressa-se aos campos para cortar o milho. Voltam os cestos, as
espigas, as concertinas e os cantares. Volta a grande desfolhada, com os
mais novos e os mais velhos sentados lado a lado, repetindo gestos que
atravessaram gerações. Procura-se o milho-rei, ri-se, canta-se, ata-se
a palha e faz-se a moreia. No final, como tantas vezes acontecia
antigamente, chega a ceia para quem trabalhou.
Dias depois, voltam a pegar-se nos cestos para a vindima. Recorda-se
que, antes de chegar o fruto, houve quem podasse, sulfatasse, amparasse
a vinha, limpasse as ervas e cuidasse dos cachos. E, quando finalmente
chegam as uvas, elas são pisadas no lagar, numa lagarada à moda
antiga, onde o vinho nasce, uma vez mais, do encontro entre o fruto da
terra e o trabalho das mãos humanas.
É esta talvez uma das imagens mais belas da festa.
Porque aquilo que chega à mesa não nasce na prateleira de uma loja.
Antes do pão houve a semente. Antes do vinho houve a videira. Antes da
espiga houve a terra preparada, o milho semeado, a chuva esperada, o sol
desejado e muitas horas de trabalho silencioso.
O Samiguel recorda-nos isso.
Recorda-nos aqueles homens e mulheres que conheciam o tempo não pelas
horas do relógio, mas pelas estações do ano. Que sabiam quando
semear, quando mondar, quando colher e quando agradecer. Gente para quem
a natureza não era cenário, mas sustento; não era decoração, mas
companheira de todos os dias.
Por isso, no domingo, os camponeses voltam simbolicamente ao adro com o
Cortejo das Primícias. Levam consigo os primeiros e melhores frutos do
seu trabalho e oferecem-nos à comunidade. Não se trata apenas de
mostrar aquilo que a terra produziu. Trata-se de reconhecer que ninguém
é verdadeiramente dono de tudo aquilo que recebe.
A terra dá, o homem trabalha, Deus abençoa — e a comunidade
agradece.
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