Projeto pioneiro prova que confiança e trabalho reduzem a reincidência. Em mais de uma década, nunca houve um único incidente.
Priscos, Braga – Há onze anos, reclusos saem de um estabelecimento prisional para trabalhar num presépio. A Paróquia de São Tiago de Priscos, mantem este modelo desde 2015. Nesse período, mais de 80 reclusos participaram na construção e na manutenção do Presépio ao Vivo de Priscos, e a Brigada de Priscos nunca registou qualquer incidente.
O resultado deste projeto é difícil de contestar: as pessoas que cumprem pena e recebem confiança, trabalho e acompanhamento respondem com responsabilidade. O Presépio ao Vivo existe há vinte anos e, há onze, abriu a sua construção a quem cumpre pena, num modelo que alia a fé, a cultura e a solidariedade a uma missão de justiça restaurativa e de humanização do sistema prisional.
Uma parceria que funciona
O projeto nasceu de um acordo entre a Direção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais e a Paróquia de São Tiago de Priscos. O Município de Braga assegura o transporte dos reclusos, através dos Transportes Urbanos de Braga. Cada uma das partes assume o seu papel, e é essa articulação que permite que pessoas privadas de liberdade trabalhem, aprendam e recomecem ainda durante o cumprimento da pena.
Uma pessoa que cumpre pena e que, no dia da liberdade, tem pouco além de uma folha de registo criminal enfrenta um caminho muito difícil. Em Priscos, o caminho começa antes: o recluso chega com um horário, uma tarefa, um chefe de equipa e a responsabilidade de pertencer a um grupo que depende do trabalho de todos.
Trabalho com salário e com horário
Os reclusos desempenham funções nas áreas da carpintaria, jardinagem, serralharia, manutenção e construção, contribuindo para a preparação e conservação do Presépio ao Vivo de Priscos. Trabalham em regime aberto, com horário regular, remuneração e acompanhamento técnico e pastoral.
Cada um aprende um ofício e, com ele, hábitos que valem em qualquer emprego: a pontualidade, a disciplina, o cuidado com as ferramentas, o respeito pelos colegas, o sentido de responsabilidade. Ganham ainda algo que a prisão dificilmente dá, uma relação real com a comunidade que os acolhe, feita de conversas, de olhares e de confiança construída dia após dia.
Formação humanista com Mário Robalo
O trabalho é só uma parte do percurso. Os reclusos recebem também formação humanista, ministrada por Mário Robalo, antigo jornalista do Expresso. Ao longo das sessões, quem passou décadas a contar histórias dos outros ajuda estes homens a olhar para a sua própria história, a pensar o que fizeram, quem são e quem querem ser quando saírem. Aprender um ofício dá-lhes com que ganhar a vida, e esta formação dá-lhes razões para a refazerem.
Uma década sem um único incidente
Ao longo de onze anos, nunca se registou qualquer incidente no âmbito da Brigada de Priscos. O número fala por si e responde, com factos, ao medo que muitas vezes rodeia a ideia de dar trabalho a quem cumpre pena. Mostra também que a confiança, quando vem acompanhada de orientação e oportunidade, é capaz de quebrar o ciclo do crime e da exclusão.
Segurança pública também se faz assim
O projeto de Priscos é uma iniciativa pastoral e é também uma política de segurança pública que dá resultados. A reinserção social é um dos instrumentos mais eficazes para prevenir a reincidência criminal, e cada percurso de reinserção bem-sucedido reduz o risco de carreiras criminosas e o seu custo social e económico.
A Paróquia de São Tiago de Priscos defende que o Estado deve reforçar os incentivos às empresas, autarquias e instituições que acolhem e formam reclusos. Sem esse investimento, o país arrisca-se a ver crescer o número de reincidentes, muitos deles com percursos criminais cada vez mais graves. A experiência de Priscos mostra que existe alternativa, e que essa alternativa é mais humana e também mais eficaz do que a exclusão. É urgente promover uma verdadeira cultura de reabilitação, que reduza o peso social e económico da criminalidade e dê às comunidades razões para confiar.
Um investimento da comunidade
Ao longo destes 11 anos, a Paróquia de São Tiago de Priscos investiu milhares de euros em salários, seguros, alimentação e equipamento de proteção individual, para garantir condições dignas e seguras a todos os participantes. Foi um esforço sustentado por uma comunidade pequena, que escolheu fazer da solidariedade uma prática do dia a dia.
A comunidade local, por sua vez, acolheu os reclusos com respeito e espírito de solidariedade, reconhecendo-lhes o esforço de mudança e o valor do trabalho que fazem. O projeto «Mais Natal Priscos» é um exemplo concreto de que a reinserção funciona quando há vontade, acompanhamento e compromisso.
Quem visita, participa
Quem entra no Presépio ao Vivo de Priscos não assiste apenas a uma representação de Natal. Participa num projeto de transformação humana. As entradas são solidárias, e cada donativo e cada presença ajudam a garantir que o programa continua e que chega a mais pessoas que precisam de uma oportunidade. O visitante, de espectador, passa a parte ativa desta história de inclusão, ajudando a garantir a sustentabilidade de uma iniciativa que há 11 anos muda vidas, fortalece laços e devolve esperança.
O Presépio ao Vivo de Priscos é hoje uma referência de reinserção. Onze anos depois, continua a inspirar comunidades e instituições e a provar que a justiça pode ser também inclusão, confiança e reconstrução humana, e que é possível transformar o sistema prisional através da fé, do trabalho e da partilha.
Pe. João Torres
Categorias Notícias